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All In, Applied

O que está acontecendo no Sahel tem a ver conosco

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Acompanhando e dando sequência às revoluções em Burkina Faso, Mali e Níger e à criação da Aliança dos Estados do Sahel, um processo inspirador, intrigante e profundo teve início na região do Sahel.

Um grupo de organizadores, ao trocar impressões sobre o ecossistema dos movimentos sociais em todo o mundo, percebeu que, em nossos contextos, não temos dado a devida atenção a esse processo.

Estamos cientes dos debates em torno de diversos aspectos: o cerne anticolonialista e anti-imperialista do projeto, as tendências anticapitalistas, as dinâmicas de integração regional, o envolvimento das bases populares, o contexto geopolítico mais amplo — que inclui grupos islâmicos armados —, bem como a interferência estrangeira. Cada um desses pontos é, por natureza, complexo, ambíguo e incerto.

Notamos, contudo, que temos tratado esse processo como uma mera curiosidade, como parte do noticiário internacional. Nossa intuição é a de que muitos outros grupos e organizações compartilham dessa mesma lacuna que identificamos em nós mesmos.

Reconhecemos que a Aliança dos Estados do Sahel tem a ver conosco. Precisamos acompanhar atentamente o que está acontecendo, o que nossos camaradas na região estão fazendo e dizendo, e o que tudo isso significa para nós e para a nossa práxis.

Convidamos nossos camaradas a debater este tema:

  • dentro de suas organizações,
  • nas redes de movimentos das quais fazem parte, bem como
  • junto à base social mais ampla em que atuam.

Temos a sorte de que vários grupos dentro do ecossistema mais amplo do movimento já tenham preparado o terreno para que possamos construir sobre ele.

Portanto, esta breve nota terá três partes simples. Primeiro: quais aspectos consideramos cruciais para o nosso próprio trabalho. Segundo: uma lista de leituras essenciais que podem nos ajudar a aprofundar os debates. Terceiro: como prosseguir a partir daqui.

Nota: Nesta breve nota, não estamos especificamente falando sobre solidariedade com os estados do Sahel. (Isso é algo que devemos fazer, e precisamos ouvir os camaradas sobre como e em que medida.) Estamos seguindo o caminho inverso: os processos revolucionários é que estão em solidariedade conosco; eles levantam questões políticas e estratégicas para o nosso trabalho, e devemos (também) explorar como isso deve influenciar o que fazemos.

Por que isso importa?

Contexto básico: Trata-se de uma região que se encontra na linha de frente da crise climática e de secas crônicas, sendo rica em urânio, ouro e petróleo. O legado colonial está muito presente, com a moeda Franco CFA controlada pelo tesouro francês, o envolvimento militar ativo do Estado francês na região, bem como estruturas imperialistas como o FMI e o Banco Mundial, com seu representante regional, a CEDEAO. Somado a isso, há cerca de vinte grupos insurgentes armados (incluindo a Al-Qaeda e o Estado Islâmico) em atividade na região.

A Aliança dos Estados do Sahel é composta por Burkina Faso, Mali e Níger, tendo surgido na esteira de diversos golpes e revoluções ocorridos na região do Sahel entre 2020 e 2023. O que diferencia essa Aliança de outros episódios de golpe na região é o apoio e a participação de organizações populares, a orientação ideológica de sua liderança, bem como a adoção de políticas anticolonialistas e de nacionalizações. A Aliança foi fundada em 2023, e os países que a compõem deixaram oficialmente a CEDEAO no início de 2024.

As iniciativas de integração regional incluem:

  • política industrial coordenada,
  • projetos conjuntos de infraestrutura energética (outubro de 2024),
  • uma força militar conjunta para combater insurgências islâmicas (janeiro de 2025),
  • controles de exportação de grãos para o restante da CEDEAO,
  • regimes tarifários comuns (março de 2025),
  • políticas harmonizadas de segurança energética e energias renováveis (maio de 2025),
  • a eliminação das taxas de roaming,
  • um passaporte comum,
  • uma política cultural comum,
  • os Jogos da Aliança dos Estados do Sahel (junho de 2025),
  • uma aliança voltada para o setor de sementes (julho de 2025),
  • um Banco Confederal de Investimento e Desenvolvimento (dezembro de 2025), bem como
  • a criação de um canal de televisão conjunto.

Atualmente, estão discutindo a união monetária, a cooperação judicial, os tribunais regionais e uma agência regional de cereais.

No mínimo, trata-se de muita coisa para um período tão curto. E este é apenas o lado oficial da história: temos dificuldade em listar as inúmeras iniciativas populares promovidas por movimentos sociais e populações locais.

Então, dado que isso é algo de enorme magnitude, o que significa para os movimentos sociais no resto do mundo? A Aliança também enfrenta diversas questões e desafios que têm implicações imediatas para o nosso próprio trabalho. Identificamos, pelo menos, três tópicos de discussão.

(1) No contexto da globalização liderada por corporações transnacionais, as eleições regulares e a participação democrática tornaram-se dois temas completamente distintos; o mesmo pode ser observado no descolamento entre as eleições democráticas e a soberania popular.

O fato de haver uma eleição não significa que as pessoas possam votar de acordo com sua própria vontade. O fato de as pessoas poderem votar não significa que elas decidam sobre quaisquer políticas. O fato de as pessoas poderem participar das decisões não significa que elas tenham qualquer poder sobre quais opções estão disponíveis ou são viáveis. Além disso, há cada vez menos sobreposição entre esses diferentes aspectos. Por um lado, a democracia nunca foi tão puramente performática. Por outro, as classes dominantes dispõem de cada vez mais espaços para exercer uma democracia participativa, por meio da qual decidem sobre nossas vidas. Em particular, há muitas décadas, as eleições tornaram-se cerimônias de transferência de poder, destinadas a implementar políticas já definidas pelos capitalistas.

A construção do poder popular e da soberania popular envolverá resistência nos campos político, econômico e cultural — e essas resistências assumirão a forma que nós lhes dermos. No que diz respeito ao processo revolucionário na região do Sahel, a nossa questão não deve ser se ele atende a algum critério formal estabelecido pelo sistema capitalista. Precisamos observar o que está sendo construído, os impactos que isso tem na vida dos trabalhadores e em que direção a configuração de poder está mudando na luta de classes.

Dito isso, nossa observação é a seguinte: essas mesmas questões aplicam-se às nossas próprias lutas e análises.

(2) Um debate renovado sobre o imperialismo é crucial. A tomada do aparato estatal capitalista pelas corporações tornou isso necessário há muito tempo, mas os acontecimentos recentes tornam essa situação ainda mais crítica. Os Estados Unidos estão sob a presidência de um CEO, que colocou outros CEOs e techbros em cargos políticos. (Não se trata de uma situação de rotatividade. Eles desempenham ambas as funções simultaneamente.) Essas pessoas não estão defendendo os “interesses dos EUA”. Estão defendendo seus próprios interesses corporativos. De certa forma, os Impérios, como tais, não existem, pois estão subordinados a interesses transnacionais. Em outras palavras, os Impérios são as corporações transnacionais. Essas corporações estão lutando entre si e mobilizam diferentes partes de diferentes mecanismos estatais para esse fim.

O que foi exposto acima refere-se à disputa entre as classes dominantes. Nenhuma delas é, por natureza, anti-imperialista.

Nossa luta é contra todas elas. Construímos poderes populares, da classe trabalhadora, em oposição aos poderes corporativos e coloniais.

Nada disso é linear ou isento de contradições. Muitas de nossas ações podem acabar beneficiando os interesses de certas potências imperialistas. Da mesma forma, muitas das ações delas podem acabar nos beneficiando.

Burkina Faso expulsou as tropas francesas e, na sequência, solicitou apoio à Rússia para combater grupos insurgentes. Tanto o Estado francês quanto o Estado russo são instrumentos do sistema imperialista. Nesse caso específico, o apoio russo ao governo de Burkina Faso configurou um ato anti-imperialista. O Estado russo, assim como todos os atores envolvidos em qualquer processo, possui seus próprios cálculos.

No contexto do capitalismo globalizado, discussões categóricas sobre o imperialismo — do tipo “será que X é imperialista?” — não são úteis para ninguém. É preciso atentar para o contexto e para a direção para a qual uma estratégia ou tática específica nos conduz. É isso que nos permite avaliar melhor os custos políticos de determinadas decisões, sem cair em um modelo de cálculo que, ao fim e ao cabo, acaba reafirmando o status quo capitalista.

(3) Isso nos leva ao terceiro ponto. Nos vimos discutindo o processo revolucionário no Sahel como uma tentativa progressista em um contexto politicamente isolado e economicamente dependente.

Muitas vezes, subestimamos as conquistas, as contradições e os desafios.

O problema é que, hoje, todos os contextos são assim. Desde a queda da União Soviética, o isolamento político e a dependência econômica tornaram-se uma realidade dada, e não uma situação evitável. Portanto, todas as conquistas deles servem como referência para nós; e todas as suas contradições e desafios também serão nossos, à medida que avançarmos.

Como estamos vivendo uma crise climática, não podemos esperar para enfrentar os mesmos desafios; precisamos aprendê-los agora. Temos uma oportunidade única de realizar uma reflexão sóbria sobre como podemos participar de um movimento revolucionário, do que nos sentimos capazes e de quais capacidades ainda nos faltam.

Estes são os três debates centrais sobre os quais gostaríamos de incentivar a reflexão nos movimentos revolucionários ao redor do mundo. Os movimentos na Aliança dos Estados do Sahel nos oferecem um pretexto e um exemplo concreto para esse propósito.

Como nos informar?

Identificamos uma fragilidade comum: não discutimos esse tema o suficiente. Naturalmente, ao percebermos que não estamos suficientemente engajados em algo, entendemos que precisávamos nos informar melhor. Achamos que seria útil compartilhar o que encontramos, para que outros camaradas possam iniciar discussões em suas próprias organizações e redes.

Abaixo, apresentamos uma lista de leituras essenciais e complementares. Ela não é exaustiva nem está totalmente atualizada — e nem pretende ser. Acreditamos, contudo, que seja útil.

Realizamos este exercício em inglês, francês e português. Disponibilizamos todo o material abaixo, organizado por idioma.

ENGLISH

The Essentials

The Sahel Seeks Sovereignty
Dossier by the Tricontinental | 50-page booklet | Table of contents: From Colonial Rule to Flag Independence; Military Intervention for National Sovereignty; Mass mobilisations; Popular Coups; The Formation and Development of the AES; Economic Challenges Ahead; Strongly Seeking Sovereignty

Solidarity with the Peoples of the AES
A series by International Peoples’ Assembly | 4 videos (from 4 min to 1h 35 min) and a selection of 9 short articles

Who is Ibrahim Traoré?
Social media post by Climate Vanguard

Hot and Cold Regional Relations with the AES
Social media post by Sovereign Media

Learn more

FRANÇAIS

L’essentiel

Le Sahel en quête de souveraineté
Dossier de l’Institut Tricontinental | Sommaire : De la domination coloniale à l’indépendance de façade ; Intervention militaire pour la souveraineté nationale ; La formation et le développement de l’AES ; Défis économiques à venir ; Une intense quête de souveraineté

CEDEAO-Alliance du Sahel : vers une nouvelle reconfiguration géopolitique de l’Afrique de l’Ouest ?
Policy paper de Nezha Alaoui M’hammdi et Larabi Jaïdi au Policy Center for the New South (think tank marocain) | 17 pages | Sommaire : La constitution de l’AES : motivations et impact sur le leadership de la CEDEAO ; L’Alliance du Sahel : la complexité de se doter d’une autonomie stratégique ; Quelles perspectives ? (trois scénarios)

Alliance des États du Sahel : défis et perspectives
Étude d’Abdoul Sogodogo pour la Friedrich-Ebert-Stiftung (fondation allemande liée au SPD, présente au Mali depuis 1972) | 15 pages | Défis sécuritaires de l’AES et plaidoyer pour une intégration démocratique « par le bas », associant les citoyens des trois pays

La création de l’Alliance des États du Sahel : quels enjeux géopolitiques pour le Sahel et la CEDEAO ?
Article de Lamine Savane pour Thinking Africa (think tank panafricaniste) | Plan : Les échecs de la CEDEAO et le rejet des interventions étrangères ; Les coups d’État comme sources de nouvelles alliances ; La pérennité de l’AES et la voie du dialogue

Pour aller plus loin

PORTUGUÊS

O essencial

O Sahel em Busca da Soberania
Dossiê por Tricontinental | Sumário: Do domínio colonial à independência da bandeira; Intervenção militar pela soberania nacional; Mobilizações em massa; Golpes populares; A formação e desenvolvimento da AES; Desafios econômicos futuros; Buscando fortemente a Soberania

Luta de Classes e Catástrofe Climática no Sahel
Dossiê por Tricontinental | Sumário: Parte I: A dessecação do Sahel e seu impacto político; A catástrofe climática; A catástrofe social e econômica; A catástrofe política; Parte II: Mali e Sudão; Mali; Sudão

Solidariedade com os Povos da AES
Série por Assembleia Internacional dos Povos | 4 vídeos (de 4 min a 1h 35 min)

A Revolução de Ibrahim Traoré: o que está acontecendo em Burkina Faso?
Reportagem por Brasil de Fato

A Confederação dos Estados do Sahel e sua luta contra o Neocolonialismo
Análise por Opera Mundi

Saiba mais

E agora?

Se você está lendo isto, é provável que alguém que concorda com essa necessidade tenha entrado em contato com você. A proposta, portanto, é iniciar um debate dentro da sua organização, nos espaços de articulação de movimentos, bem como junto ao público em geral.

Não existem diretrizes. Você saberá qual a melhor forma de estabelecer uma relação de camaradagem com os processos revolucionários na região do Sahel. Você saberá o que é mais relevante para o seu contexto. Você saberá de que maneiras pode aprimorar sua análise e sua práxis, por meio da experiência dos movimentos na região do Sahel.

Acreditamos que conhecer a forma como outros grupos estão abordando essa tarefa pode servir de inspiração para mais pessoas. Por isso, caso você organize um debate ou publique um texto (ou se planeja fazê-lo), por favor, nos avise por e-mail (hello@all-in.now) — assim, poderemos registrar a iniciativa e compartilhá-la com outros.

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