§1. Os movimentos sociais têm um hábito de ter uma divisão de tarefas entre a teoria e a praxis.
Há poucos livros que contam uma estratégia em implementação. Há poucas organizadoras que explicitam a sua estratégia enquanto estão a implementá-la.
Quem está a organizar o movimento não tem tempo para escrever; quem está a escrever não está no terreno.
A pior forma que a gente encontrou até agora são os opinadores, que analizam, criticam e palestram, a partir duma ecrã, sobre o que um movimento devia fazer. A melhor forma que a gente encontrou até agora são os antigos dirigentes que escrevem em formato de formação política para passar as aprendizagens às novas organizadoras. Entre estas duas formas há um espéctro de opções. Todas elas são, a final das contas, mortas: estão isentas de prática, o que implica que estão isentas de emoções, o que implica que estão isentas de compreensão.
“É difícil encontrar livros de lideranças de base dos movimentos e dos povos, gente que está com a mão na terra. Quase sempre os livros dos movimentos refletem opiniões de intelectuais que acompanham essas lutas e a interpretam em diálogo com as lideranças.”
Nós lemos muitos livros assim. Talvez por isso mesmo é que demorámos tanto tempo a aprender a estrategizar e organizar.
Por Terra e Território, por Joelson Ferreira e Erahsto Felício, quebra essa tradição e traz um ar fresco aos movimentos sociais.
“Aqui está uma tese política com um programa de fundo, mas não é o programa da Teia dos Povos. É uma proposta de Joelson Ferreira ao debate, porque o texto mescla experiências exitosas e consolidadas na Teia, como a caminhada pela soberania hídrica e a soberania alimentar, com anseios ainda não realizados, como a soberania energética. Este livro é um chamado para avançar em caminhos que já aprendemos a caminhar e também um sonho utópico de construção de uma aliança de povos que alcance todo o território do que chamamos Brasil – algo ainda distante de nosso horizonte.”
§2. Por Terra e Território é uma apresentação estratégica da Teia dos Povos, uma articulação de comunidades e territórios autogeridos, movimentos sociais e grupos de apoio, fundada em 2012, composta por representantes Pataxós, Tupinambás,Pataxó Hã-hã-hãe, quilombolas e campesinos de diversos movimentos. Ele não é a apresentação da Teia dos Povos, mas é uma apresentação: clara, rigorosa, focada, e dirigida à prática.
O livro começa com uma breve introdução à Teia dos Povos, apresenta as várias “caminhadas” que compõem o projeto político, e reflete sobre debates em curso no contexto político brasileiro.
Vindo duma articulação (e de décadas de experiência revolucionária), Por Terra e Território usa uma abordagem de ecologia-de-movimento que reconhece, assegura e convida uma diversidade e uma pluralidade articuladas.
§3. Por Terra e Território tece análise política, propostas tácticas, critíca às esquerdas, planos de ação e um re-contar da história dos movimentos sociais no Brasil. Há muito a aprender de cada aspecto e também da integração destes vários aspectos num pensamento holístico.
Neste pequeno ensaio, queremos somente destacar alguns pontos de cruzamento e intersecção entre All In e Por Terra e Território, informando-nos também pelo artigo O ambientalismo radical dos povos: primeiro passo para uma transição socioecológica emancipadora (por Erahsto Felício e Neto Onirê Sankara) e pelas conversas informais com algumas organizadoras.
§4. Por Terra e Território rejeita o que nós às vezes chamamos estrateǵias dentro-do-sistema. Enquanto o All In descarta essa opção porque mudanças incrementais não conseguem entregar a mudança sistêmica em tempo útil para travar o colapso climático, Por Terra e Território destaca que estar dentro do sistema significa também estar assimilada ao mesmo: “Tomar o Estado pela via, pelas regras que os brancos burgueses criaram não nos interessa.”
§5. Por Terra e Território convoca uma Grande Aliança Preta, Indígena e Popular. Isto seria uma articulação revolucionária contra o racismo, o capitalismo e o patriarcado, que simultaneamente assegura a diversidade e a pluralidade dos povos e constroi unidade em luta. Aqui os autores explicitamente evitam falar de classe porque não a acham útil para a sua tarefa, mas pela descrição de quem estaria convidada a esta aliança e quem estaria excluída parece-nos muito próximo da definição ecofeminista de classe no All In, traduzido pelo contexto da Teia dos Povos.
§6. A parte mais inspiradora do Por Terra e Território são os capítulos das caminhadas (soberania hídrica, soberania alimentar, trabalho e renda, soberania pedagógica, soberania energética, autodefesa, cuidado, desconstrução do machismo). Cada uma é apresentada com uma análise, uma direção e um plano de ação concreto. Pensando a nível de ecologia de movimentos, são várias prioridades estratégicas que os povos articuladas na Teia dos Povos podem focar-se. E são essas estratégias que articulariam os povos em luta, tecendo as aprendizagens e as capacidades.
Devemos imaginar esse ecossistema dentro duma visão estratégica que parte das lutas territoriais. As caminhadas, a Grande Aliança e as reflexões particulares do livro vivem nesse terreno político, e assim fazem parte dum movimento histórico internacional. Por Terra e Território alimenta-se desta história e também ambiciona contribuir ao percurso dos movimentos territoriais.
§7. Os autores têm uma preocupação principal com construir poder popular, um foco contra a hegemonia capitalista e imperialista. Falam da soberania hídrica e soberania alimentar, nesse sentido de conseguir sustentar uma luta revolucionária:
“Construir soberania alimentar é uma caminhada, sem a qual nossa jornada poderá ficar comprometida; sem a qual todo projeto emancipatório pode ser assediado pelos poderes para se desmobilizar.”
Ou, mais elaborado no artigo,
“Quando o alimento fundamental para a existência material das pessoas passa a ser produto de uma das indústrias mais cruéis, perde-se parte da condição para se rebelar. … Nós entendemos que a soberania alimentar é uma condição emancipatória para a luta popular. Soberania alimentar que não significa ter acesso à alimentação diariamente apenas, mas o acesso à terra, sementes crioulas, condições de cultivo, armazenamento e beneficiamento de alimentos saudáveis. Um povo sem soberania alimentar tem uma margem de manobra política muito curta. … Assim devemos olhar para onde vivem nossas maiorias e nos perguntarmos como é possível ampliar as condições de emancipação em periferias militarizadas, em cidades insalubres, em empregos cada vez com contratos mais precários, num contexto de calamidade climática e racismo ambiental.”
É para isso que é preciso terra e território. E é por isso que devemos pensar sobre soberania por uma ótica de desmercantilização. Outra vez do artigo:
“há um duplo movimento político: ao retomar a terra, o trabalhador começa a desfazer sua sujeição à classe proprietária como trabalhador alienado, ao passo que também amplia sua autonomia frente ao capital uma vez que possui maior margem de manobra tendo água, terra, alimentos, moradia e saúde.”
Têm uma ênfase na soberania alimentar como base de sustento da vida. Mas na verdade, todas as “caminhadas” são pensadas com a visão de construir contrapoder material dos movimentos, algo que os movimentos no Norte Global têm perdido da vista (o que pode explicar a falta de movimentos transformadores ambiciosos nesses sítios). No livrete “Colheita Ruptural: Emergencia Climática, Soberanía Alimentaria y el Mandato Organizativo para una Ruptura Sistémica”, algumas pessoas procuraram exlplorar mais a fundo a problemática da soberania alimentar através das lentes das proposições do All In.
§8. Para quem está mais habituada à terminologia do All In: se as “caminhadas” são várias prioridades estratégicas por articular, a Grande Estratégia seria a construção de soberania popular por via destas caminhadas.
§9. Voltando ao início, queremos destacar de novo a nossa admiração com a escrita duma estratégia em implementação.
Os revolucionários pelo mundo inteiro estão demasiado habituados a escrever só depois da experiência, o que naturalmente infecta a análise com uma revisão retrospectiva. Estar no futuro permite ver coisas que não são visíveis no presente. Mas esse exercício não nos permite aprender como ver as oportunidades e as fraquezas durante o presente.
Para isso, é preciso escrevermos as nossas hipóteses em experimentação, enquanto elas estão vivas e a serem testadas. É uma posição difícil, porque implica escrever sabendo que nem tudo vai funcionar e que podem faltar elementos essenciais. É uma posição revolucionária, porque implica uma insistência de falhar para a frente.
Por outro lado, na generalidade do texto mas também nos detalhes e anecdotas, vemos a experiência política que informa a hipótese do livro. Por Terra e Território, para além de ser uma apresentação de uma proposta, é também uma apresentação dum acúmulo de prática. Em outras palavras, ele reside na coincidência dialética de teoria e prática.
Por Terra e Território é extremamente útil para quem se inspira do projeto político da Teia dos Povos, para quem não concorda com a proposta, e para quem não tem contexto semelhante para sequer aplicá-la: é um exercício honesto, direto, audaz, profundo – em uma palavra, revolucionário.
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Matilde Alvim é uma ativista pela justiça climática baseada em Lisboa. Foi co-fundadora e organizadora da Greve Climática Estudantil em Portugal em 2019 e do movimento “Fim ao Fóssil” em 2022, em ambos casos a nível nacional e internacional. Nos últimos anos tem estado mais no Climáximo. No seu tempo livre, ela é uma antropóloga.
Sinan Eden é o co-autor do livro All In.
N.B. Estes artigos de “interação” são leituras com ângulos específicos. Não temos qualquer intenção de resumir ou resenhar os livros em causa. Em vez disso, estamos explorando interações entre os conteúdos dos livros (argumentos principais ou observações gerais) e a abordagem de estratégia e organização a nível de movimento apresentada no All In.