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Apresentação de All in: uma teoria revolucionária para interromper o colapso climático

“Uma catástrofe iminente se aproxima […]. O perigo de uma grande catástrofe e da fome é iminente. Todos os jornais já escreveram sobre isso uma infinidade de vezes. Os partidos […] votaram um sem-número de resoluções nas quais se reconhece que a catástrofe é inevitável, que está muito próxima, que é necessário adotar medidas extremas para lutar contra ela, que é necessário que o povo faça ‘heroicos esforços’ para evitar a ruína etc. Todo mundo diz. Todo mundo reconhece. Todo mundo pensa que é assim. Mas nada se faz”.1Lenin. “A catástrofe que nos ameaça e como combatê-la”. In: S. Zizek (org.). Às portas da revolução. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 77

Assim Lênin abre seu impactante texto de setembro de 1917, “A catástrofe que nos ameaça e como combatê-la”. O livro que você agora tem em mãos não é mais um documento morto que se acrescentará à imensa e crescente montanha de entulho inconsequente a que se refere Lênin, publicada em jornais, resoluções, manifestos etc. Aqui, encontramos uma reflexão ambiciosa, que não somente parte da sólida base da experiência histórica e de uma compreensão teórica aguda, mas também a mobiliza para uma prospecção intransigentemente rigorosa e sóbria da gravidade do momento atual, da magnitude das transformações substantivas necessárias, da urgência de efetivá-las e, especialmente, dos caminhos realmente viáveis para pretendermos sair vitoriosos.

Trata-se de um chamado direto e sem meias palavras à política revolucionária. Um chamado que não se satisfaz em afirmar protocolarmente a necessidade de uma revolução apenas para, ato contínuo, remetê-la a um futuro indeterminado no qual supostamente seriam reunidas as condições para tal; que não se deixa seduzir pela via fácil de um exercício interminável de prefiguração; que propõe nos desfazermos de ilusões confortáveis sobre transições graduais e de avaliações autoindulgentes sobre supostas pequenas vitórias. A conversa é séria, franca, autocrítica, sem eufemismos ou exageros. Marina e Sinan tomam a tarefa de sistematizar um acúmulo coletivo de sua organização (Climaximo) para propor um caminho organizacional que nos permita vislumbrar a possibilidade de um salto qualitativo capaz de arrancar as organizações revolucionárias dos limites estreitos de uma política acomodada à ordem. Um salto que nos coloque à altura da imensidão dos desafios.

Nesse caminho, é imprescindível que duas tentações sejam ativamente evitadas. Por um lado, a escala e a urgência das transformações necessárias poderiam nos levar a uma busca desesperada pela máxima unidade, capaz de reunir o maior conjunto possível de forças políticas. Por outro lado, a necessidade de um processo de ruptura poderia nos levar a uma busca por pureza teórica, tática, estratégica, enfim, revolucionária. No primeiro caso, a máxima unidade traz força política, mas presa à ordem vigente, i.e. às custas de qualquer conteúdo revolucionário. Perde-se um vetor fundamental, indispensável. No segundo caso, preserva-se o ímpeto orientado para a revolução, mas às custas de uma adesão significativa e, portanto, de qualquer chance real de impacto.

Em All in, não somos convocados nem à assimilação acrítica ao jogo da institucionalidade burguesa nem ao sectarismo. A proposição de unidade se limita a um núcleo fundamental indispensável: (i) o reconhecimento do processo de colapso ecológico/climático em curso e o reconhecimento da inviabilidade ecológica da sociedade capitalista e (ii) as conclusões lógicas da necessidade e da urgência da revolução (temos prazo e ele é curtíssimo). Em torno disso, admite-se uma rica diversidade de concepções estratégicas e de capacidades constituídas e acumuladas. Parece óbvio, mas vem sendo concretamente negligenciado em nossa prática: a diversidade, quando ancorada em diagnóstico e prognóstico básicos comuns e consistentes, tem o potencial de ser impulsionadora de nossas chances de vitória.

Para alguém que, como eu, está mergulhado na nascente literatura sobre leninismo ecológico, movido por inquietações muito semelhantes às de nossas autoras, a noção de movimento-como-partido remete a aspectos diversos das contribuições de Andreas Malm, Kai Heron, Jodi Dean e Derek Wall. Mais que isso, tal noção proporciona uma chave para costurar as diretrizes básicas da preparação, do ataque às causas, da urgência e da não hesitação com a construção do Partido, entendido como cristalização última de uma organização proletária prodigiosa e multifacetada.

A mensagem de primeiro plano, que se depreende das anteriores, mas as subordina, é francamente operacional. Entender, planejar, pôr em marcha, insistem Marina e Sinan. Avaliar a cada passo, aprender, repensar, planejar, pôr em marcha de novo, incansavelmente e sem jamais perder de vista a finalidade de superação da sociedade capitalista em um prazo extraordinariamente curto.

As circunstâncias exigem coragem. À medida que desmoronam as condições ecológicas planetárias (e, portanto, também as sociais e as econômicas), cada vez mais pessoas, classes, povos, nações, países serão levados a situações de “tudo ou nada”, serão forçados a travar embates decisivos. Precisamos de coragem para entender o que está em jogo e para entender que o jogo não será jogado por gerações futuras, mas por nós. O gradualismo não é mais uma opção. A mera resistência não é mais uma opção. Precisamos de coragem para saber que derrotas, que o fracasso, são possibilidades muito objetivas. Precisamos de coragem para, apesar disso, correr riscos, colocar em jogo todos os meios necessários; para ousar vencer. À luta!

Eduardo Sá Barreto
Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2025