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O significado central da emergência climática para organizadores de movimentos sociais – Sinan Eden

1. Há um argumento crucial que o movimento pela justiça climática trouxe consigo. Por um breve período de tempo, pareceu que este argumento tinha penetrado no conhecimento geral dos movimentos sociais. Isso na verdade não aconteceu.

Esse argumento é sobre o significado da emergência climática.

Não é um argumento sobre discurso público nem sobre políticas públicas. Foi um argumento para dentro, para outros movimentos sociais. Contudo, esse argumento não foi integrado no conhecimento coletivo dos movimentos sociais.

Esta pequena nota pretende esclarecer que a crise climática não é mais uma crise entre muitas crises e não é mais um tópico entre vários tópicos. Há algo substancialmente único sobre a crise climática que transforma o terreno de luta por inteiro e para toda a gente.

A crise climática é uma crise existencial

2. As tendências atuais das emissões de carbono e os cenários de aquecimento associados a elas põem em risco a viabilidade da civilização humana na Terra. Quando cientistas alertam sobre a crescente probabilidade do “fim do mundo como conhecemos”, isto não é uma metáfora. Nós genuinamente não sabemos sequer modelar esse novo planeta que vem. O cenário não é “este mundo, mas muito pior”; é realmente sobre um outro planeta que nós desconhecemos.

Todos os ecossistemas vão ser danificados, muitos para além da possibilidade de recuperação. Todos os países vão entrar em crise social e política (há boa razão para os multimillionários estarem a construir bunkers). Isto não é uma pior situação de sofrimento, é uma categoria completamente nova de sofrimento generalizado (sempre desigual na mesma, e cada vez mais desigual).

É preciso não esquecer: é muito pior que nós achamos; durante décadas tem sido pior do que as estimativas de cientistas; e provavelmente vai ser sempre pior que nós como espécie temos capacidade cognitiva para compreender.

A crise climática piora com o business-as-usual

3. Isto é um fenómeno único de ponto de vista das lutas sociais históricas.

Se os homens matam 250 mulheres por dia neste momento e se os deixarmos agir de mesma forma que hoje (sem relaxar as normas atuais), então é de esperar que matem aproximadamente 250 mulheres por dia daqui a uma década.

Se o desemprego entre os jovens é de 30% num país e se as políticas económicas dos governos e das empresas ficarem iguais, então é expectável que o desemprego juvenil fique por volta de 30% no ano seguinte.

Em geral, o senso comum diz que as coisas pioram quando ocorrem novas decisões ou ações. A vida das pessoas migrantes piora com a introdução de novas leis xenófobas. As condições de trabalho pioram com leis laborais reacionárias.

Isto não é o caso com a crise climática. Ela é um monstro radicalmente diferente.

O cenário de business-as-usual (ou seja, deixar a indústria de combustíveis fósseis no estado em que está hoje) causaria um aquecimento de 5ºC, em comparação com o aquecimento de 1.5 ºC até agora.

Tal seria um inferno terrestre. A maioria das populações (humanas e não-humanas) não podiam viver onde estão atualmente.

Identificar o status quo atual como não só a causa do problema mas também como o acelerador do problema é uma nova situação trazida pela emergência climática.

4. A abolição dos combustíveis fósseis em virtualmente todas as atividades económicas é uma condição necessária para existência humana. Isto vai dar muito trabalho, particularmente trabalho político de baixo e à esquerda – trabalho duro que o movimento pela justiça climática há cinco anos atrás não se atreveu a fazer com a seriedade adequada.

A crise climática piora exponencialmente com o business-as-usual

5. Isto também é um fenómeno único num outro sentido.

Todas as emissões causam aquecimento adicional. Pioram a situação. Mas pioram quanto?

Se temos 1,5 ºC de aquecimento até hoje, esperamos que um aquecimento de 3 ºC seja pior no dobro da atualidade? Isto seria uma interpretação de senso comum para qualquer problema social: se há quatro conflitos regionais em vez de dois, esperamos o sofrimento a afetar aproximademente o dobro de número de pessoas; se o preço do pão duplicar, então a gente espera que o acesso a pão se reduza a metade.

Esta lógica não funciona com a crise climática. Nós sabemos que a diferença entre 1.5 ºC e 2 ºC é catastrófica. Muitos ecossistemas globais colapsam nesse ponto. De 2 ºC para 3 ºC, a questão é sobre a habitabilidade de grandes partes do planeta. Muitas cidades costeiras vão ficar inundadas semi-permanentemente, países inteiros vão tornar-se desertos. De 3ºC para 4ºC, a maioria de atividade económica (como produção de comida ou comércio internacional) vai ser interrompida globalmente e por períodos longos. Não haverá literalmente comida suficiente no mundo, enquanto a temperatura sentida nas ruas será fatal por largos períodos. Os conflitos sociais dentro e entre os países serão a nova norma. Nós já sabemos os tipos de armas que eles têm e que têm estado a desenvolver para essas guerras. A partir de 4 ºC, não sabemos. Nenhuma ficção foi tão longe.

6. Os impactos aumentam-se exponencialmente. Cada molécula de carbono adicionado na atmosfera tem um efeito cumulativo e não-linear. Essa é a razão pela qual temos de parar os combustíveis fósseis hoje, e não amanhã.

A crise climática começa a piorar automaticamente a partir dum certo ponto

7. Para complicar a situação ainda mais, há processos físicos e químicos, partes integrais do sistema terrestre, que tornam o aquecimento irreversível. Alterações climáticas descontroladas podem ser muito contra-intuitivas para dirigentes dos movimentos sociais, por isso quero dar-nos algum tempo para corrermos isto com calma.

O carbono já emitido está preso na atmosfera. Só uma pequena parte disso pode ser retirado. Mas isto não é o problema.

A temperatura já aumentada está fixa. Só um pequeno arrefecimento pode acontecer. Mas isto também não é o problema.

Depois de um certo nível de aquecimento, só o facto de termos chegado a essa temperatura vai causar aquecimento adicional. Ou seja, a partir de certo ponto, é a aceleração do aquecimento já alcançado, que entrará em modo automático. Isto é que é o problema.

Vamos ver um exemplo simplicado. Quando ultrapassamos o patamar de 2 ºC de aquecimento, vários ecossistemas florestais colapsam. As árvores ardem e libertam carbono para atmosfera. Este carbono adicional empurra-nos para mais aquecimento. Imagina então um cenário em que ultrapassamos os 2 ºC e aí conseguimos fechar a economia inteira. Nesse caso, não existem novas emissões causadas pelos humanos, porque parámos a atividade económica inteira. Contudo, há ainda novas emissões (dos incêndios descontrolados) que causam novo aquecimento! Chegando a 3ºC, espera-se que as reservas de metano no permafrost entrem em colapso, o que causaria o mesmo efeito. Com 4 ºC de aquecimento, as reservas de metano no chão dos oceanos libertam-se. Cada um destes pontos de inflexão empurra-nos para o próximo grau de aquecimento. Este efeito de dominó é o que deixa os cientistas acordados à noite.

8. Uma dinâmica assim não está presente em qualquer outro assunto social.

Nós podemos imaginar paz no mundo. Pode demorar, mas é possível. Se não ganharmos hoje, se não ganharmos no próximo ano, seria ainda possível depois.

Nós podemos imaginar um mundo sem femicídio. Pode demorar décadas, pode haver avanços e recuos, mas a vitória estaria sempre ao nosso alcance.

A luta contra o racismo nunca será completamente perdida. Se não ganhámos nos anos 60, podemos continuar a lutar e a vitória será sempre acessível, em função da nossa determinação e inteligência política coletiva.

Até a crise climática chegar e apresentar-nos com esta situação, nós nunca pensaríamos que um problema se auto-alimentaria até ao ponto de ficar fora do nosso controlo: isto é único para a crise climática.

Esta é a razão pela qual acabar com os combustíveis fósseis hoje tem um impacto qualitativamente diferente do que pará-los daqui a duas décadas. Amanhã já será demasiado tarde para centenas de milhões de pessoas mais adiante.

Estrategizar em emergência climática

9. Vamos recapitular.

  • A crise climática é uma crise existencial.
  • A crise climática piora com o business-as-usual.
  • A crise climática piora exponencialmente com o business-as-usual.
  • A crise climática começa a piorar automaticamente a partir de certo ponto.

O que é que isto significa para militantes dos movimentos sociais? Significa que todos os parâmetros de luta, de todas as lutas, mudaram. Nenhuma experiência passada, nenhuma pressuposição anterior pode ser transposta para esta nova situação sem uma revisão fundamental das nossas estratégias.

10. O próprio movimento pela justiça climática não compreendeu a profundidade destas afirmações. Uma boa parte da cooptação, de desmobilização e do descarrilamento político pode ser explicado pela falta da audácia do movimento em relação ao seu argumento.

11. Em termos de estratégia, há algumas conclusões imediatas.

11.1. As coisas não piorarem não basta.

Os governos, as políticas e as instituições que nos levaram até agora são responsáveis pela crise climática. Colocaram na linha toda a vida humana na Terra. Lançaram um sistema de múltiplos genocídios que se auto-alimenta. Eles não são “o menor mal” em qualquer sentido da palavra. São os condutores principais do fascismo. Todos eles.

O “programa mínimo” é revolução. Qualquer estratégia que lava a imagem do establishment é cúmplice de assassinato em massa. Qualquer organização do movimento social que segue uma estratégia assim é suicida, pois participa literalmente na sua própria eliminação total.

11.2. Os combustíveis fósseis têm de acabar.

Não teremos qualquer chance de ganhar se não desmantelarmos o capitalismo fóssil muito rapidamente. As emissões estão a minar o chão no qual lutamos. Isto não é sobre “ganhar tempo”, é sobre ganhar um chão em cima do qual podemos lutar. É sobre ter uma realidade física em que as lutas podem continuar e ter esperança de ganhar.

O establishment está a distrair a atenção pública com palavras como “transição” ou “investimento verde”. São distrações irrelevantes. Turbinas eólicas não cortam emissões, cortar emissões corta emissões. O ponto é desmantelar a indústria de combustíveis fósseis por inteiro. Este ponto é agora um critério necessário para qualquer estratégia realista para qualquer luta.

11.3. Temos de almejar ganhar a curto-prazo.

As nossas lutas e os nossos movimentos podem ser consideradas como a luta e o como o movimento. Podemos ver-nos lutando contra o mesmo inimigo, o capitalismo, em terrenos diferentes. De um ponto de vista de estratégia, alguns terrenos podem ser mais férteis. Talvez uma crise de custo de vida agite melhor do que qualquer outro assunto numa certa altura num país. Se calhar os direitos das pessoas migrantes dão-nos uma melhor alavanca para construir solidariedade de classe num momento específico.

Seja qual for a nossa luta específica, a crise climática dá-nos uma nova informação: temos muito pouco tempo para ganhar a todas as nossas lutas.

Isto é que é o significado central da emergência climática. A emergência é que nós temos de ter estratégias de vitória, temos de planear para ganhar tudo, e temos de ter planos a curto prazo para ganhar tudo. Isto é um enquadramento completamente diferente para a atividade de estrategizar. Ninguém na nossa história do movimento desenhou estratégias para prazos de entrega não-negociáveis produzidos pela física e química.

11.4. Temos de ser extremamente inteligentes e estar extremamente atentas.

Temos muito pouco tempo para ganhar. Portanto, por um lado, não temos tempo para perder com más estratégias. Não temos tempo para repetir erros. Não temos tempo para ignorar as lições já tiradas das experiências dos movimentos anteriores.

Por outro lado, não temos tempo para perder com atividade não-estratégica. A emergência climática serve de verificação de sanidade para todos os nossos planos de ação. Temos de ter objetivos estratégicos observáveis e refutáveis que sejam compatíveis com construir poder popular, e temos de ter planos concretos para atingir esses objetivos a curto prazo.

12. Neste momento histórico, estas quatro conclusões deviam ser já óbvias para militantes dos movimentos em qualquer área de intervenção. Estas conclusões fornecem-nos uma âncora a uma disciplina de estratégia de uma clareza sem precedentes.

13. O negacionismo climático subtil enraizado nos movimentos sociais causa uma inaceitável lacuna de ambição nos nossos esforços de organização e nas nossas estratégias. Temos de enfrentar a nova realidade dentro da qual estamos agora todas a trabalhar.

Isto significa revisitar as nossas premissas sobre globalização, luta de classes, teorias de mudança e modelos organizativos. O livro recém publicado All In: uma teoria revolucionária para interromper o colapso climático visa dar um passo honesto e detalhado nesse sentido.


Este artigo foi originalmente publicado pela ZNetwork. Foi depois traduzido para Português pelo Climáximo.

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